Importante!

Este blog não tem propósito de indicar tratamentos para substituir cuidados médicos e medicamentos.Em caso de doença procure um médico e faça o tratamento corretamente.As dicas aqui descritas servem como terapia complementar e preventiva.




domingo, 29 de maio de 2011

Entendendo a Dança



A série de artigos sobre Dança que tenho escrito para o Portal da Família vem revelando a necessidade, já manifesta por alguns leitores, de falar sobre sua história.



De fato, ao mencionar personagens paradigmáticos descontextualizados no tempo histórico em que atuaram desestimulo, em parte, a curiosidade de quem lê sobre o assunto, além de desperdiçar um magnífico espaço disponível para discorrer sobre a beleza do desenvolvimento da dança através da história da humanidade.

Assim sendo, a par de artigos pertinentes a temas atuais, optei por elaborar uma pequena história da dança em capítulos. Serão contemplados apenas os valores ocidentais de civilização, considerando nossa própria história e colonização e lembrando sempre quão distantes nos encontramos da concepção oriental da vida, que não será abordada. Igualmente, é preciso que se tenha claro que a abordagem da história, que tem como referência base a análise antropológica de Curt Sachs, autor de "Historia Universal de la Danza", diz respeito a costumes de povos com diferentes culturas e diferentes graus de "civilização". Espero, dessa forma, contribuir para a divulgação e melhor compreensão dessa arte que me escolheu e à qual me dedico com um prazer inesgotável.

A primeira abordagem abrange conceituação de dança e aborda sua análise segundo o movimento.


"Se considerarmos a dança como uma predisposição herdada que se manifesta em diversas formas de movimento e em diferentes grupos humanos e a associarmos, com todo o seu potencial de energia, a outros fenômenos da civilização, sua história poderá se constituir num fator de enorme importância para o estudo da espécie."

Curt Sachs

A dança é uma forma de expressão complexa, praticamente indefinível fora do universo filosófico/artístico. Exemplificando: Definir dança como "uma atividade físico-rítmica desprovida da idéia de trabalho" pode parecer, à primeira vista, adequada. Mas o ato de remar também cabe nessa definição e não é arte; logo não é dança.

Grosso modo, pode-se afirmar que os povos que denotaram influência da dança que imitava os animais possuíram variedade de movimentos e dançaram com entusiasmo; os que ignoraram essa influência evidenciaram menos movimentos e pouca animação para dançar. Mas é incontestável que todos os povos dançam.

Associada ao mágico, ao êxtase, a dança começou a ser considerada, entre povos primitivos, como um recurso para comunicação entre vivos e mortos; tal ligação impôs-lhe regras disciplinares que lhe conferiu o aspecto de cerimônia formal. Formalizados, dançarinos e "coreógrafos-feiticeiros" começaram a se preocupar com a coordenação e com a estética[1] dos movimentos, originalmente, naturais e instintivos do corpo, vendo-se, assim, diante das chamadas danças espetaculares, ou seja, do "espetáculo".

A dança pode ser analisada de muitas maneiras: movimento, temas e tipos, formas, estilos, música, ornamento, preferência dos sexos, número, atração por um ou outro lado ao girar ou ao executar um movimento, etc. Conhecer, ainda que superficialmente, essas abordagens, enriquece nossa capacidade de observar a dança e explica muitas de nossas lendas, festividades e danças tradicionais.

Segundo os movimentos:

Relacionando a dança aos movimentos ela pode se mostrar em harmonia ou em desarmonia com o corpo; de uma ou de outra maneira leva, tanto quem executa quanto quem assiste ao estado extático.

Nas danças em harmonia, as mais numerosas, objetiva-se superar as limitações naturais do corpo através do estímulo proporcionado pelo prazer e pelo êxtase. Executando movimentos que tendam para cima e para frente tenta-se romper o laço de gravidade. Bailarinos clássicos, entre outros, convivem permanentemente com a prazerosa sensação de superação da lei da gravidade, seja girando, saltando, realizando pas-de-deux, interpretando personagens, situações, ou simplesmente executando movimentos de dança.

As danças em harmonia com o corpo podem ser abertas (expandidas) ou fechadas (introvertidas).

Nas danças abertas, predominantemente masculinas, é que a reação motora se apresenta mais forte; cada músculo atinge sua tensão mais extrema, na tentativa obstinada de aliviar o corpo de seu peso. O homem foi, portanto, o primeiro grande dançarino da história, sendo a África o continente, por excelência, das danças abertas.

Dentre as danças abertas mais conhecidas citam-se:


Dança de salto. Representa o ápice da dança aberta. É executada com saltos que envolvem o lançamento das pernas a grandes alturas.

Dança de palmada. Representa a necessidade masculina de desgastar sua excessiva energia. Vivas e exuberantes são executadas usando-se palmadas no próprio corpo.

Danças de saltos de cócoras. São executadas com movimentos agachados enquanto as pernas são lançadas violenta e alternadamente para frente, retrocedendo imediatamente após cada lançamento. Nosso frevo é um bom exemplo dessas danças.

Dança de brincadeira. Muito difundida, nela se pula de uma perna para outra, levantando rápida e alternadamente a parte superior da perna de forma moderada. Crianças brincando de roda estão, geralmente, executando uma dança de brincadeira.

Dança nas pontas dos pés e Dança de uma perna só. Muito duais, na primeira, a tentativa de ascender-se não chega a fazer com que o corpo abandone totalmente o chão. Tornou-se a expressão máxima do ballet romântico e, no Brasil podemos encontrá-la em danças gaúchas e no frevo, entre outras. Na segunda, outra expressão da urgência de sair do solo, utiliza-se a redução da base de sustentação diminuindo, assim, o contato com a terra. Lembremo-nos da lenda do Saci-Pererê. Menos praticadas, a Dança nas pontas dos pés e a Dança de uma perna só se situam na limiar das danças fechadas, introvertidas, mais características do mundo feminino.

As danças fechadas usam um centro fixo de movimento para balançar o corpo todo ou parte dele, equilibrando-se enquanto este movimento é executado. Neste balanceio o ritmo flui resultando numa dança de flexibilidade controlada dos membros, calma e composta, que contrasta com a liberdade das danças abertas.


Vários são os movimentos de balanceio que reconhecemos até em aulas de ginástica:, tais como: flexionar a cabeça para frente e para trás, para um lado e outro, girar a cabeça, o corpo e a pélvis, inclinar o tronco para frente e para trás, balançar a pélvis para frente e para trás, um lado e outro, flexionar e estender os braços e alongar e flexionar mãos, dedos, pés e joelhos.


A única dança fechada que merece registro especial é a dança do ventre. Provavelmente originária dos egípcios, considerando o vocábulo "messeri ou mássari", adotados do árabe "masri" que significa, justamente, egípcio, é praticada em vários continentes. Infelizmente, da sua finalidade de ritual para promover a vida e o crescimento degenerou, por séculos, em dança erótica, mero passatempo de banquetes de castas sociais consideradas "superiores".


Nas danças em desarmonia, de movimentos convulsivos, o êxtase se dá pela mortificação do corpo, pela reação que, apesar de masoquista, consegue fazer com que o executante fique "fora de si".


As chamadas danças de assento, de giro e de torção podem ser consideradas variantes das danças fechadas, já no limite tênue que separa a concepção harmônica daquela onde o movimento se mostra em desarmonia com o corpo.


Nas danças de assento, executadas sentadas, o centro do balanceio que propicia o êxtase permanece só no tronco; a parte inferior do corpo se mantém inativa. Mãos e braços, som de aplausos e do golpear de pequenos instrumentos de madeira representam um papel preponderante.


Nas danças de giro o dançarino, ao terminá-las, normalmente perde a noção de seu próprio corpo e do seu "eu" e, assim libertado, conquista o "deus", numa manifestação evidente do xamanismo[2] e da sua cultura da magia. Evoluindo no tempo e desenvolvendo uma técnica para executar giros, qualquer bailarino clássico conhece a sensação de liberdade proporcionada pela realização de um giro em alta velocidade ao qual o ballet denominou "chainé - encadeado" ou executando um grande número de piruetas. Entretanto, executado espontaneamente, o giro pode colocar quem o realiza tonto e enjoado, denotando então seu caráter de dança em desarmonia com o corpo.


As danças de torção também manifestam a transição entre danças em harmonia e em desarmonia. Os limites em que o ato de procurar e executar a distorção, enfatizando-a, deixa de ser harmônico e passa a ser contrário à natureza é muito sutil.


Sachs afirma, e vale registrar que o contraste entre a dança aberta e a fechada, mais do que um contraste de sexos, representou um contraste de povos. Quanto mais agrícola e matriarcal se apresentava uma cultura, mais fechada era a dança que praticava e vice-versa. Em outras palavras: povos com sociedade e economia predominantemente masculina enfatizaram, ordinariamente, os movimentos saltados.


As danças em desarmonia com o corpo, bem restritas, podem ser convulsivas puras, atenuadas, malaias ou mórbidas.


Nas danças convulsivas puras os membros não se subordinam à vontade dos dançarinos e os corpos, banhados de suor, tornam-se convulsionados e todo o sistema muscular entra em jogo. Colocados em círculo, os executantes marcam o compasso com os calcanhares enquanto mantêm os olhos voltados para cima. Podem ser executadas com acompanhamento de canto juntamente com tambor e integradas por palavras supostamente mágicas.


As danças convulsivas atenuadas diferem das puras porque o movimento corporal se subordina à vontade dos dançarinos na medida em que consciência é mantida.


As danças malaias, apesar de menos selvagens, possuem as mesmas características das convulsivas. Compostas de convulsões espasmódicas em posição flexionada desconfortável, buscam chegar a um estado de paroxismo procurando não tensionar os músculos. Não se pode conceituar, entretanto, esse tipo de perda da consciência como uma atividade, mas como um padecimento.


Sobre as chamadas danças mórbidas, a única informação que consegui revela que apesar de muito difundidas ficaram limitadas a certos povos da Europa e da Ásia.


Pode-se concluir que a dança convulsiva caracterizou as culturas xamânicas, onde o fundamento da religião era (e é) a existência de espíritos sobrenaturais que se manifestavam através do médico-feiticeiro. Para esses povos, por uma tendência peculiar ou em função de influências culturais, a experiência religiosa e seus cultos se basearam e foram ditados pela hipnose.


Mas, todo povo, por primitivo que seja, é na verdade, o resultado de uma fusão incalculável de influências que, se por um lado foram sendo levadas a todo canto do mundo, por outro só as assimilaram os povos predispostos a recebe-las. Por isso mesmo torna-se difícil definir fronteiras claras entre as danças em harmonia ou em desarmonia com o corpo e ambas podem ser encontradas até nossos dias em todas as suas manifestações.







--------------------------------------------------------------------------------

Eliana Caminada é Orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".
Entendendo a Dança 2


Eliana Caminada


"A máscara, em sua fantasia selvagem e exuberante, freqüentemente não parece algo sagrado ou espiritualmente elevado; ao contrário, sua deformação chega à beira do ridículo, sem esquecer, que a mistura de idéias intuitivas com outras simplesmente grotescas constitui-se numa característica das experiências do subconsciente".

Continuando nossa história, abordamos nesse artigo a análise da dança de acordo com os temas e tipos.

Infinitos são os temas abordados pela dança. Qualquer acontecimento, importante ou rotineiro, justifica a manifestação dançada. Para o homem primitivo os temas de dança eram, em sua essência, àqueles ligados à vida e à sobrevivência: força, luta, fertilidade, fecundidade, saúde, doença, etc.

Esses temas podem ser representados por três tipos de dança: abstrata, imagética ou mesclada de ambos os tipos.

As danças imagéticas, miméticas ou imitativas, resultam da observação do mundo exterior e da tentativa de imitá-lo. Extrovertida, patriarcal e sensorial, a dança com imagem se originou da idéia de que a imitação um gesto ou atitude gesto eram suficientes para incorporar um poder e torná-lo útil. De acordo com essa concepção, quando o homem que imitava os animais, por exemplo, além de se identificar com eles e incorporá-los, conseguia reconhecer sua importância para a sobrevivência de todos.

Todos os povos que caçam têm prazer em dançar. Algumas tribos acreditam, até hoje, possuir vínculos sangüíneos com bichos: os totens. Em geral, a dança animal é masculina, mas certos movimentos podem ter origem em impulsos femininos. A estilização gradual dos movimentos da dança animal destorceu a tal ponto a naturalidade, que a imitação, não mais reconhecível, tornou-se uma abstração.

Como exemplos de danças de imagem relacionamos:

Danças de fecundidade. Ligadas à agricultura, embora estiveram, de início, associadas às mulheres, só se desenvolveram nas culturas agrícolas quando o homem assumiu o trabalho no campo. Devem ser entendidas considerando que para mentes primitivas, o sexo não existia (e) associado a idéia de deleite dos sentidos, mas de algo vital para a perpetuação da espécie.
São exemplos de danças de fecundidade, entre outras, as danças de brincadeira, de beijos, matrimoniais, de nudez, de iniciação, entre outras, com suas imitações de trovões, raios e vento e os acessórios considerados sexuais, como a flecha, a lança, etc.


Danças de galanteio. São encontradas no mundo todo, mas, pela sua criatividade se destacam as formas húngaras, alpinas e espanholas.
A húngara deu origem à conhecida dança chamada "czardas". Liberdade e poesia se refletem no rosto do executante e quem a assiste sabe que jamais poderá ser reproduzida mecanicamente por uma caixinha de música, como é possível, por exemplo, com o minueto; a alpina, viva, livre e expandida, é dançada, principalmente, por bávaros meridionais, tiroleses e salzburgueses; as espanholas reproduzem o auge do galanteio. Dotadas de uma perfeição que sempre encanta, preenche, como nenhuma outra, talvez, a necessidade de emoção manifestada, tanto por quem executa, como por quem assiste. Sua origem remonta aos fenícios, em solo espanhol mesmo, provindo de uma herança de mais de 2000 anos. Fandango, jota, sevilhana, bolero, bulerias, alegrias, entre muitas outras, a Espanha é um paraíso para os que amam a dança.


Danças fúnebres. Para as culturas extrovertidas podiam significar uma trama da vida diante do poder da morte. Usando a máscara como importante acessório, essas danças imitavam os movimentos de um morto na tentativa de se apossar do seu espírito. Curiosamente, a dança fúnebre apresentava-se alegre quando, em rituais de casamento, era associada à idéia de ressurreição. Em 1674 se teve notícia dessa prática num rito religioso judeu realizado em Clèves; passando à Alemanha e à Boêmia deu origem ao motivo do conto infantil de "A Bela Adormecida" que, ao receber um beijo, ressuscita para a vida transformando uma mórbida cerimônia em animada celebração. O homem primitivo sempre associou as diversas estações da natureza à morte e à ressurreição e a arte sempre expressou essa crença.


Danças de armas miméticas. Como diz o nome são executadas com armas. Ao representar a dança em forma de luta vitoriosa onde se uniam a movimentação dançada e a ação da batalha, imaginava-se garantir o êxito da empreitada. As danças de habilidade podem ser consideradas danças de armas pela necessidade que tem o executante de possuir essa qualidade para evitar ferir ou ser ferido ao dançar. Com freqüência, uma movimentação erótica é associada à guerreira, assinalando a velha relação entre a luta e a amor sensual e seu caráter defensivo. O poeta, romancista, contista, ensaísta, crítico de arte, de literatura e de música Mário de Andrade (1893-1945), no volume I de suas "Danças Dramáticas do Brasil" menciona a dança de armas como o motivo essencial das nossas "Cheganças", tanto de marujos quanto de mouros, refletindo a herança luso-hispânica que integra nossa colonização.

A dança de imagem também pode ser criação do ser introvertido; esse dançarino pode sentir-se possuído pelo ser que está representando, embora sua concepção seja abstrata, ou seja, sem imagem. Essa dualidade introduz a forma intermediária que tende a materializar a abstração e a idealizar a figura.

A dança sem imagem, abstrata, apresenta formas ilimitadas. Buscando um êxtase que transcenda o estado físico o dançarino acaba por conseguir sair "fora de si" para participar do que acontece no seu próprio universo. Os temas, por mais variados e fortes que sejam, são considerados enquanto idéia pura, não intervindo, dessa maneira, na forma da dança.

As danças sem imagem podem ser:

Danças medicinais. No centro de um círculo, o dançarino-feiticeiro, em estado de êxtase visionário, sugeria ver o passado e o futuro, aumentando, em si mesmo, a sensação extática da comunidade e realizando sua aspiração de se ver diante de um ato sobrenatural.


Danças de fertilidade ou fecundidade. Também xamânicas, eram executadas pelo feiticeiro que tentava atrair forças da natureza imprescindíveis para o cultivo da terra. Ainda podemos ver essas danças em cerimônias de tribos indígenas ou de aborígenes. A célebre dança popular Maypole (Dança do pau de fita) é uma antiga dança de fertilidade dançada em maio. Na Europa ela simboliza o fim do inverno e o início da primavera e o ingênuo mastro era, originalmente, um símbolo fálico e pagão desses ritos. Proibido pela igreja do período elisabetano, faz parte da mais célebre criação de sir Frederick Ashton [1], "La fille mal gardée" [2], inspirado no original de Jean Dauberval datado de 1789. Universais, as danças de fertilidade ou fecundidade (o homem primitivo não dissociava uma coisa da outra) não são dançadas entre a semeadura e colheita, o que talvez explique sua proibição nesse período entre muitos povos primitivos e justifique, igualmente, a época em que tem lugar as temporadas de dança em grande parte do mundo.


Danças de iniciação. Desempenham importante papel nos ritos de circuncisão, menstruação, núpcias ou outros similares. São realizadas, em geral, ao redor do fogo, com o rosto voltado para o Leste. Este detalhe ainda é difundido por pensadores e filósofos espiritualistas, já que a morte, o fim, assim como o ocaso estão a Oeste (o passado) e o renascimento e a regeneração à Leste (o amanhã). O ballet "La Bayadère" mostra um típico exemplo de dança de iniciação ao redor do fogo [3]. As danças de iniciação nupciais executadas em torno de pedras "sagradas" recebem o nome de danças ígneas.


Danças de tocha. Têm o fogo como tema, o que significava e significa um sinal de distinção para quem o carrega. A tocha olímpica é uma boa alegoria da importância da luz, pelo que simboliza da luta do homem para dominar o desconhecido e iluminar as trevas na permanente busca do amanhã e da superação dos seus limites.


Danças fúnebres. Em geral executadas em círculo, têm ao centro figuras (xamã, animal, mesa com alimentos, etc.) que só guardam com a festividade uma relação muito distante. Com o sentido de proteger os mortos ou os vivos contra espíritos hostis ou constituindo-se numa dança que possibilite ao morto um encontro com os antepassados, a dança funerária tem o propósito de criar um vínculo entre os seres deste e os de outro mundo.


Danças guerreiras. As danças guerreiras sem imagem fazem parte do universo feminino. Sem participarem dos combates, as mulheres acreditavam que dançando conseguiam se transportar teluricamente para ajudar os homens na guerra. Pelas danças guerreiras verifica-se que, como em todos os aspectos das manifestações humanas, a dança pode se apresentar através de culturas contrastantes. O extrovertido atinge o êxtase imitando o que pode ver e o introvertido o faz sentindo-se possuído pelo ser que está representando.
As danças mescladas se constituem da mistura das duas formas já descritas e surgiram da mistura dos povos e da difusão de suas diversas culturas. A dança por sua própria natureza terminou por transportar o dançarino extrovertido a um mundo no qual a mera imitação corporal foi superada, afastando-o do sóbrio e da razão e levando-o à abstração dos introvertidos.

Como danças mescladas classificam-se, entre outras:

Danças de fertilidade. Exemplificando: uma vasilha com água colocada no centro de um círculo cumpre o papel de ímã para atrair a chuva. Estilizando-se a imagem chega-se à clássica figura de recolher com as mãos uma água que já nem é mais colocada, elevando-as em oferenda. Executado por uma virgem, esse gesto tem o significado religioso da fecundidade; refinado pelo ballet ele transformou-se no movimento conhecido como port-de-bras [4].


Danças de iniciação. São praticadas por ambos os sexos.


Danças de armas. A alternância entre imagem e abstração determinaram as formas das danças européias recentes. Na forma clássica da dança de espadas que floresceu entre os séculos XIV e XVIII a movimentação acontecia ao ar livre. Contava com dois guias e um bufão e os dançarinos, com o rosto pintado e guizos costurados aos trajes brancos, portavam espadas e usavam pífanos e tambores. Os bailarinos trançavam no solo suas armas realizando a coreografia ao redor delas, terminando a cerimônia com exibições de esgrima, uma dança de ronda e um cumprimento final. As danças de paus, com seus golpes rítmicos provenientes da batida de um pau contra o outro, também são consideradas danças de armas. Os paus e as espadas são elementos usados à vontade por diversos povos e pelos mais diferentes motivos. Vale lembrar do nosso maculelê, por exemplo.


Danças astrais. Podem ser solares ou lunares. Subordinavam-se à idéia de assegurar a vida e o crescimento através dos movimentos e das figuras formadas pelos astros, movendo-se a favor ou contra os ponteiros do relógio. As danças solares são menos criativas, já que o percurso do sol é sempre uniforme e sua imagem sempre a mesma. Como movimentação, o sol só induz à formação de círculo, o que pode ser facilmente observável até pelas letras das nossas músicas populares. "... Sol, pelo amor de Deus não venha agora que a morena vai logo embora..." Feitiço da Vila de Noel Rosa. A lua se apresenta aos nossos olhos de diversas maneiras o que torna as danças lunares muito mais interessantes e inspiradoras. As danças de coxear significando seres ou forças da natureza também são consideradas astrais. Interpretam o ciclo da existência: nascimento, vida, morte e renascimento e a debilidade do recém-nascido que, na sua fragilidade, não consegue caminhar sem coxear.


Danças de máscara. A máscara cumpria dois papéis: por um lado protegia quem a usava e por outro permitia que ele assumisse um outro "eu". Sem esse acessório a anulação da consciência na dança dependia de uma transformação física visível. A dualidade do significado da máscara se afirma na medida em que, para os povos de caráter extrovertido, ela incorporava os traços do animal que estava representando; para os de cultura introvertida representava um espírito a quem o xamã tivesse contemplado em sonhos.

No próximo capítulo ainda será possível encontrar referências a máscara enquanto ornamento de inúmeras danças.


Entendendo a Dança 3


Eliana Caminada


Neste capítulo veremos a dança analisada segundo ornamentos, formas, direção, números, lados, sexos e música, com o que podemos encerrar o ciclo ao qual convencionamos denominar 'conceituação de dança'.

'O ato de trançar cordas é uma atividade simbólica que aparece com freqüência e que se baseia na noção do tecer e do fiar das três parcas[1]. Quando a atividade da natureza e sua potencialidade figurativa e formadora foi representada por esses ofícios artesanais, o homem reconheceu neles um maior número de relações com o trabalho de criação telúrica. No ato de juntar dois fios pode-se ver a dualidade do poder e a penetração das potências dos dois sexos requeridos para gerar. Essa relação se faz mais clara quando se considera a técnica do tear; o entrecruzamento dos fios e suas alternadas aparições e desaparições constroem uma figura que corresponderia, em todas as suas partes, ao trabalho da natureza”.

J.J. Bachofen[2]

Adornos e ornamentos

Os adornos e os ornamentos, usados como vigorosos recursos para induzir ao êxtase, são encontrados desde as mais primitivas manifestações ritualísticas; até os chimpanzés se enfeitam e se pintam. De simples linhas pintadas, num trajeto infinito de criações fantásticas, passamos por tatuagens, penas, plumas, etc., e chegamos aos trajes e acessórios dos nossos dias, milhares, apropriados a um número incontável de situações.

Quando os enfeites serviam a um ritual religioso ajudavam, por um lado, através de cores, formas ou materiais, a intensificar o êxtase; por outro auxiliava a acentuar o aspecto mimético da dança de imagem, configurando a presença da dança mesclada na dança mascarada.

A máscara, tão utilizada, foi um dos adornos mais poderosos. Aos poucos foi perdendo sua função e terminou, em geral, sendo substituída pela maquiagem.

Três linhas principais de desenvolvimento levam a dança mascarada ao mundo contemporâneo: a 1a, descendente, revela uma contínua degeneração e profanação, desaguando no carnaval dos países ocidentais, que nada conservaram dos antigos ritos de fecundação, a não ser a própria máscara e seu disfarce; a 2a chega até o universo infantil que, por seu intermédio, satisfaz o desejo de fazer crer, tão peculiar à criança; a 3a linha, ascendente, faz uso dos recursos expressionistas da máscara e nos transporta diretamente ao drama.

Formas:

Quanto às formas as danças podem ser individuais, de par, corais, contínuas ou de retorno.

O círculo sem contato é a forma mais antiga de dança coral (de conjunto). À medida que vai evoluindo adquire um significado especial uma vez que, em princípio, rodear um objeto é se apossar dele, rodear uma pessoa é dominá-la.

As danças circulares compreendem rondas simples, duplas, triplas, quádruplas ou de mais círculos, com ou sem contato entre os executantes.

A maioria das danças abstratas, calcadas na idéia de fechamento ao mundo exterior, utilizou o círculo; as miméticas adotaram principalmente a fila, já que esta formação permitia uma comunicação mais fácil entre os componentes e, deles, com o mundo que os rodeava. Quando o círculo foi adotado como forma das primeiras construções, a dança já o utilizava há muito tempo. O ato de se envolver para se proteger ou envolver aqueles ou aquilo que amamos, é bem sintomático dessa idéia; porque o círculo traz consigo a idéia de proteção.

Interessante, é observar que o impulso que levou o homem a construir choças retangulares foi o mesmo que o fez adotar uma linha reta, assim como, às culturas que adotaram as danças em círculo, correspondem construções redondas. Aparentemente, uma forte necessidade interior associou o impulso gerador do movimento da dança e o que funcionou para levantar abrigos.

Quanto às danças contínuas e as de retorno, ambas se originaram do ciclo de tensão e distensão próprias do nosso dinamismo interno. Nas danças contínuas se observa a tendência deslizante, sempre para frente; nas de retorno, a cada dois passos para frente se executa um para trás. A procissão dos Penitentes de Lazarenos, na Espanha, é um exemplo típico do movimento de retorno.

Direção:

No movimento circular, o sentido mais usado é o da direita, ou seja, o mesmo em que avançam os ponteiros do relógio. Em rituais primitivos o sentido para a esquerda era, muitas vezes, ligado a danças fúnebres.

As rondas serpentinas e as danças de labirinto se originaram da figura do oito com seu duplo “s” e tiveram como ponto de partida o próprio círculo. Em algum momento, em função de espaço ou do número de participantes, a forma circular tornou-se aberta e livre e a ronda se converteu em movimento serpentino, cuja lenda nos remete à Grécia, ao mito de Teseu[3] e à ilha de Creta.

Toda estrutura labiríntica pressupõe o movimento, mas o movimento de serpente independe da forma de labirinto. Associado à mesma idéia, vale lembrar do movimento em zig-zag, encontrado em várias danças primitivas, expressão de manifestação espontânea e sensorial que evita o caminho reto.

A adoção das filas trouxe às danças a idéia do cruzamento com sua idéia de entrelaçar, atravessar e tecer; a mesma da arte de fiar, tramar e trançar. O tema do trançado merece uma observação. Apesar de nascidas do impulso que tende ao movimento, as artes do trançado e do ornamento não se relacionaram no que se refere às formas. Razões técnicas, sexuais, que predominavam nesse tipo de atividade, entre outras, impediram, com freqüência, essa relação, tornando difícil reconhecer qual das duas formas de arte lançou primeiro mão da idéia do trançamento. Provavelmente a dança o fez antes da decoração.

Números

Os números foram, muitas vezes, considerados sagrados e, em função deles, variavam a quantidade de rondas, passos, dias dos bailes, cantos, refrões, etc. Nas culturas matriarcais agrícolas, com suas religiões terrestres e lunares, os números pares eram os sagrados; ao contrário, para os povos totemistas, patriarcais e solares, os números ímpares é que mereceram essa classificação.

Lados:

Em seus estudos antropológicos, o mesmo Bachofen observou e registrou a preferência do corpo para o lado esquerdo ou para o direito, associando tal inclinação à história da cultura. Nos matriarcados agrícolas o lado esquerdo prevaleceu; o direito foi o preferido nos patriarcados e entre nobres e caçadores. No nosso dia a dia, em geral, revelamo-nos destros, ainda que, muitas vezes, em giros, manifestemos uma tendência, totalmente inexplicável, para o outro lado.

Os sexos:

As danças masculinas são muito mais numerosas que as femininas; danças de caça, solares, medicinais, xamânicas, guerreiras miméticas e de animais, entre várias outras, sempre foram executadas somente por homens. Instrumentos tais como flautas, tubas e berrantes não podiam, por vezes, sequer ser olhados pelas mulheres, sob pena de severa punição.

As danças femininas, entre as quais as de fecundidade e fertilidade, realizadas em função de atrair chuva, de aumentar a colheita, de festejar núpcias e partos, e as danças lunares, se basearam nos conceitos das culturas essencialmente agrícolas. Nelas, a presença masculina era considerada transgressão passível de ser punida com a morte. Ritos fúnebres pré-agrícolas também foram encontrados em culturas matriarcais. Não se registrou o uso de máscaras nas danças fúnebres quando executadas por mulheres.

As danças mistas, mais recentes, surgiram nas culturas femininas agrícolas e acabaram por se difundir, tanto entre as culturas campesinas, quanto entre as nobres, chegando às manifestações culturais superiores. As religiões monoteístas chegaram, em determinados momentos da história, a proibir a execução de danças mistas; na Idade Média ela só era liberada em ocasiões especiais.

Música:

Mário de Andrade em “Pequena História da Música” afirma que o homem encontrou dentro de si mesmo, na sua respiração, nas batidas do seu coração, no ritmo do próprio caminhar, seus primeiros acompanhamentos rítmicos; a voz produz o som. Assim desenvolvemos os dois componentes básicos da música: o ritmo e o som.

A necessidade de imitar os ruídos da natureza que o cercava contribuiu para a evolução sonora do homem. A palmada se fez ouvir como um som agudo que se antepunha ao som grave do golpe do pé no chão de terra nua.

À natural progressividade trouxe o aplauso, as “castanholas” com os dedos e a otimização mais efetiva dos braços e pernas através de objetos. O tambor surgiu como o prolongamento dos membros superiores com a finalidade de lhes valorizar o som.

Gradativamente, instrumentos que funcionavam como marcadores rítmicos se revelaram poderosos auxiliares para a dança de fundo religioso. Entre eles podem ser citados os címbalos, os raspadores, a vara de percussão, a flauta e o gongo. O som do gongo favorece o estado de êxtase e pode, até hoje, ser apreciado, em todo o seu potencial, na China e da Índia.

O canto e a dança, que sempre estiveram intimamente associados e nasceram do impulso para o movimento, expressam muito bem o contraste entre o universo feminino e o masculino. Os cantos de tribos livres e selvagens eram altissonantes e violentos; os homens lançavam mão de todos os recursos de voz para se expressarem e o compasso de suas danças tendeu a ser ternário e portanto menos rígido. Já os cantos das tribos introvertidas e serenas eram tímidos e tranqüilos; as mulheres cantavam com a boca fechada, usando poucos movimentos dos lábios e, na maioria das vezes, o compasso utilizado era binário.

A música instrumental melódica só surgiu nas culturas campesinas superiores. Nas danças acompanhadas por melodia os homens utilizaram os instrumentos de sopro, da classe dos extrovertidos, e as mulheres os de corda, da categoria dos introvertidos.

Essas características foram determinantes para formar o caráter das danças européias, desde a Idade Média, até danças muito recentes.

Entendendo a Dança 4

As primeiras manifestações de dança segundo as Idades


Eliana Caminada

As primeiras manifestações de dança segundo as Idades
"A Dança nasceu da necessidade de expressar uma emoção, de uma plenitude particular do ser, de uma exuberância instintiva, de um apelo misterioso que atinge até o próprio mundo animal."

A análise cronológica sintetiza o que foi explicitado nos capítulos anteriores, tendo sempre presente duas realidades até certo ponto antagônicas:

. a linguagem gestual imitativa (mimética) é a mais antiga forma de comunicação do ser humano, podendo remontar a milhares de anos em suas primeiras manifestações.

. por primeiras manifestações, não devemos considerar somente as Idades, já que se registram no seio de australianos, africanos, neozelandeses, índios, entre outros, alguns povos que ainda guardam suas mais antigas manifestações.

Considerando a tabela cronológica de Curt Sachs e juntando a ela as idades aproximadas de acordo com a Enciclopédia da Civilização e das Artes de B.M.Ugolotti, podemos dividir as primeiras manifestações de dança, em dados gerais, em seis períodos:

Período paleolítico inferior - 1000.000 anos a.C. - primitiva cultura básica: dança circular sem contato.>

Período paleolítico médio - 350.000 a 75.000 anos a.C. - culturas básicas médias: pigmeus (dança circular sem contato e danças animais) e pigmóides (dança circular sem contato e danças convulsivas).

Período paleolítico superior - 75.000 a 15.000 anos a.C. - últimas culturas básicas: tasmanóides e australóides (dança circular sem contato, danças animais, danças serpentinas e danças sexo-lunares).

Período mesolítico - 15.000 a 10.000 anos a.C. - primitivas culturas de tribo: totemistas (danças de máscara, danças animais, danças circulares com contato, danças sexuais masculinas) e primitivos agricultores (danças de máscara, danças circulares corais, danças lunares e danças fúnebres).

Período protoneolítico - 10.000 a 3.000 a.C. - culturas de tribo médias: cultura do animal de cornos (danças circulares, danças animais, danças de par) e última cultura agrícola (danças de vários círculos, homens e mulheres dançando em linhas opostas).

Período neolítico - até 1.000 anos a.C. - Idade do metal: senhorial e últimas culturas de tribo: campesina (danças mistas de pares, dança de abraço, dança de galanteio, dança do ventre).

Se a essa tabela acrescentarmos movimentos e formas praticadas pelo homem para se comunicar, sobreviver e raciocinar, podemos idealizar e estruturar, mais ou menos, a evolução cronológica da dança, como já foi colocado no primeiro capítulo. O homem "técnico” do paleolítico inferior, já conhecia as figuras do círculo sem contato quando aprendeu a dominar algum jogo e a inventar um tipo de arma para se defender: a pedra de sílex amarrada à extremidade de um pau.

Mesmo lutando pela sobrevivência o homem, em algum momento, dirigiu sua atenção para uma atividade imaterial e tornou-se artista. A Dança nasceu da necessidade de expressar uma emoção, de uma plenitude particular do ser, de uma exuberância instintiva, de um apelo misterioso que atinge até o próprio mundo animal, embora, só com o homem ela se eleve à categoria de arte, em função de sua consciência.

No seu primórdio a dança foi uma manifestação naturalista. À repetição sincronizada de gestos, inicialmente desordenados, pode-se considerar como a primeira técnica desenvolvida pelo ser humano. Repetida, usando mais elementos e uma gradativa estilização, a seqüência de movimentos foi se constituindo numa "coreografia", como testemunham vários gráficos.

No paleolítico médio os dois tipos básicos de homem estão desenvolvidos: pigmeus extrovertidos, com visível talento para dança e pigmóides introvertidos, que privilegiavam a dança em desarmonia, embora não se tenha notícia de um indivíduo sequer que não possua algo das características opostas; no paleolítico superior observaram-se formações individuais e corais, o círculo foi mantido quase sem nenhum contato corporal entre seus integrantes e a forma serpentina foi introduzida.

A divisão dos dois mundos ficou evidente: o sem imagem, extático, lunar, e o outro, sensorial, solar e imitativo.

O período mesolítico reafirmou essa dualidade: povos patriarcais de religiões monoteístas introduziram danças sexuais masculinas às suas danças cada vez mais naturalistas, excluindo as mulheres, as quais só foi dado assistir, das cerimônias. Povos formados por primitivos agricultores acrescentaram às primitivas danças circulares a execução coletiva usando os círculos dobrados, as danças lunares e as fúnebres com as máscaras que as acompanhavam.

A fixação do homem à terra produziu, na dança, consideráveis modificações. O trabalho feminino passou a ser valorizado, surgiram as primeiras formas de matriarcado com sua mitologia lunar. Pela primeira vez os dançarinos se agruparam em linhas e a choça passou a ser retangular. A noção de alma, até então ausente, fortaleceu o culto aos antepassados, o xamanismo e o sepultamento de mortos. Nessas culturas, de desenhos abstratos e geométricos, o naturalismo esteve ausente. O espírito que as movia não era observativo, mas meditativo; os sonhos, não a realidade, lhes inspiraram e deram forma.

Na transição para o neolítico houve o início da domesticação de animais; cuidava-se do gado, o arco e a lança, e mais tarde a massa, foram as armas usadas. Ritos de circuncisão foram introduzidos, assim como danças de par sem contato e danças de armas. As casas já se apresentaram retangulares, a tendência para o patriarcado se instalou firmemente. O canibalismo, o fetichismo e a imagem da caveira foram introduzidos nas cerimônias rituais. Os círculos se triplicaram, surgiram as espirais simples e duplas, somando-se a motivos ornamentais e geométricos. Homens e mulheres dispostos em duas linhas, uma de frente para a outra, já foram encontrados convivendo com as danças de saltos altos, que visavam promover o crescimento da semente.

O período neolítico, que precede a chamada “Idade dos Metais”, já começou a apresentar os dois tipos de cultura distintas, mas que se completam e que só existem, uma em função da outra, a cultura campesina e a senhorial, ou seja: a dança dos virtuoses pagos que se exibem aos que possuem riqueza.

A cultura campesina foi responsável pela ênfase da sexualidade através da representação mimética do galanteio e da sedução. A dança coral, em que uma linha de homens se opunha à de mulheres, começou a apresentar figuras que se juntavam e se dividiam em complicados labirintos.As danças femininas eróticas, em geral solistas, tornaram-se muito importantes.

Na passagem do puramente devocional e social para o profissional e teatral, as danças fixaram as divisões de trabalho e as distinções marcantes entre a cultura da classe aristocrática urbana e a dos que recebiam para realizar algo. Admite-se que cultura senhorial conduziu à dança espetáculo dos orientais, enquanto a dança campesina pura levou à dança popular ocidental.

As danças de procissão e as circulares nunca desapareceram, mas o neolítico ficou caracterizado pelas danças de pares, abraçados ou não, usando cada vez mais o abstracionismo, o domínio da técnica, tornando-se, finalmente, uma dança de exibição, ou seja: um entretenimento.

Ao chegarmos à dança espetacular – dança espetáculo - encontramo-nos diante das culturas superiores que, com suas divisões em classes e castas, destruíram a unidades sociais dos povos, segregando e separando as diversas atividades humanas.

Enquanto apenas fenômeno emocional a dança do homem pode ser tão livre quanto a do chimpanzé. Como ato religioso, submetida a regras mantidas de geração para geração, isto não aconteceu. Impulso criador, observação estética, organização e construção harmoniosa e inteligente, a devoção fez da dança uma arte, embasada sobre a idéia de recompensas materiais: de um lado o artista que ganha para trabalhar, de outro o espectador que paga e usufrui do que assiste.

Era o fim da improvisação. Artistas e espectadores passaram a zelar pela exatidão das cerimônias rituais e pela manutenção do que já se tornara uma “tradição”, trazendo consigo a idéia de ensino e de escolha.

Regulamentada, elaborada, narrativa, remunerada, a dança chegara ao drama.

O drama surgiu das necessidades fundamentais do homem, desde o seu primórdio, e provavelmente seguirá cumprindo este papel enquanto ele, homem, existir. Ao representar a humanidade procurou resolver seus momentos de maior tensão em termos humanos, lançando mão, para isso, de todas as expressões artísticas: artes plásticas, música, palavra e dança; surgiu também em função de capacidade imaginativa mais acentuada de um membro da comunidade e do seu talento para interpretar os anseios da sociedade, sendo elevado, naturalmente, à função de seu porta-voz.

Tanto quanto o homem simples de hoje, o homem primitivo gostava de narrar fatos de sua tribo, suas conquistas e suas experiências. Mesmo quando já abstratas como forma, as danças continuaram a cumprir o papel de narrar, com emoção, esses momentos distantes, em progressão lógica, fazendo com que o homem sentisse ali, vigorosamente, a presença do que já havia acontecido como se estivesse ocorrendo de novo.

Diz o crítico John Gassner em seu livro “Mestres do Teatro”:

“Desejando e mais, precisando alimentar-se, conquistar e defender-se de inimigos e outras necessidades básicas, o homem logo aprendeu a tentar realizar esses desejos através da dança, e assim seguiu até que a dança pantomímica se tornou a mais acabada das formas primitivas de drama e o dramaturgo se tornou um coreógrafo. O dramaturgo primitivo ou coreógrafo, formula e conduz a pantomima intelectualmente, ocupa o papel de mecânico ao criar os primeiros adereços cênicos rústicos, de sacerdote que ensina o homem a orar, ou de alguém que coloca Deus, a natureza ou o que quer que se queira chamar, à serviço do homem, associando além disso, essa oração ao trabalho... Este sacerdote é ainda um feiticeiro exorcista, um curandeiro e um filósofo social, na medida em que organiza a representação da atividade da comunidade, ampliando a realidade”.

Longe das culturas básicas, em que as próprias mães se incumbiam de ensinar a seus filhos os ritos cerimoniais, os profissionais dançarinos eram enviados a lugares famosos por ensinarem a dançar, ainda que distantes. Num processo rápido de conversão, essas danças foram revelando a habilidade de cada aprendiz, tornando-a uma aquisição pessoal, consciente e reconhecida, mesmo que por trás perdurasse, e assim foi por bastante tempo, o espírito religioso que ensejou a execução dançada.

Típicas virtuoses, as bailarinas dos cultos foram afastadas da família e do trabalho doméstico e sustentadas para se dedicarem somente ao templo e à arte; as virgens, ao amadurecerem, se convertiam em propriedade dos sacerdotes, que se apresentavam como representantes do deus aos quais haviam passado a pertencer. Até sexualmente. Consultar o ballet “La Bayadère” (ver nota de rodapé nº 5).

Nas altas culturas da Idade do Metal ficou clara a separação da sociedade em duas classes: a que praticavam a dança senhorial, dos donos do metal, e a dança “proletária”, praticada a serviço dos detentores da riqueza.

Conclusão:

Os elementos que foram resumidamente analisados acompanharam o desenvolvimento do homem desde o Paleolítico até nossos dias. Vistos de maneira primitiva ou já completamente estilizados, compõem as encenações dançadas, quer nas suas manifestações livres e populares, quer inseridos nas formas cênicas mais sofisticadas e elaboradas.


autora Eliana Caminada

Nenhum comentário:

Postar um comentário