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Este blog não tem propósito de indicar tratamentos para substituir cuidados médicos e medicamentos.Em caso de doença procure um médico e faça o tratamento corretamente.As dicas aqui descritas servem como terapia complementar e preventiva.




sábado, 28 de maio de 2011

Filme: O discurso do rei


Encontro entre o futuro rei da inglaterra e seu terapeuta aborda relação de transfêrencia, fundamental para mover o paciente da paralisia sintomática.


O filme O discurso do rei, do diretor inglês Tom Hooper, apresenta a história verdadeira da superação de um mal-estar na fala: a enigmática gagueira. Embora não possa ser atribuído a uma única causa específica, trata-se de um sintoma que começa a aparecer por volta dos 3 anos, quando - do ponto de vista psicanalítico – a criança deveria estar em condições de cumprir etapas do desenvolvimento associa­ das ao complexo de Édipo, entre elas a identificação com o pai, no caso do menino.


A história do duque de York, conhecido como Bertie pelos mais próximos (Colin Firth), lançada em livro pela Record, revela vários fatores que dificultam essa identifica­ção: a sabotagem da babá que prejudica sua imagem para os pais e lhe impõe a humilhação de ficar sem comer. Em seu relato marcante fica clara a condição de submetimento ao desejo perverso do outro, da qual deriva um problema estomacal crônico e o ernbotamento da fala. O impedimento do olhar dos pais em sua direção simbolicamente barra as chances de reconhe­cimento, o que culmina com o fracasso da identificação com a figura paterna.

A impotência simbólica é delatada em suas tentativas de sustentar as palavras entrecortadas pela falência do ritmo. A busca inglória de tratamentos sem resultados reedita as humilhações às quais o personagem responde com a agressividade recalcada na infância.

O sintoma produz essas mazelas, mas de certa forma também permite ao menino excessivamente castrado alimentar-se amorosamente na intimidade da família preservada da dor que constituiu, onde pode exercer o papel de pai amoroso e marido amado.

É influenciado pela terna insistência da esposa que decide procurar o terapeuta Lionel Lougue (Geoffrey Rush). A partir daí começa um processo terapêutico recheado de lições sobre a função do terapeu­ta, pensada pela psicanálise como indissociável da condição que este tem de manejar a transferência e, assim, favorecer a percepção de traços apagados, movendo o paciente da paralisia sintomática. Considerando que a transferência é uma solicitação de reconhecimento e amor remetida a alguém com quem imaginariamente a pessoa se identifica e a quem atribui um saber, podemos pensar que seja também o aval para que o processo terapêutico aconteça em qualquer clínica.


É preciso supor uma condição de autoridade no terapeuta como esteio para percorrer a própria história. Apesar da arrogância apavorada e da transferência nega-tiva despertada em ou­tros tratamentos, o futuro rei suporta ser visto e ouvido de um prisma bastante distinto da “versão oficial” de si mesmo.

Inicialmente a concessão dada ao terapeuta estava atrelada à condição de que este apenas focasse sua prática em “truques” e exercícios, visando driblar a falta de fluência verbal. Colocado num suposto lugar de competência, o terapeuta passa a delimitar as regras de funcionamento do setting.

Esse aspecto marcante do trabalho tera­ pêutico parece trazer como consequência a possibilidade de o duque se identificar com um homem que pode exercer autoridade sem subjugá-lo – e descobre assim uma nova modalidade de relação. Tendo em mente que os truques não resolveriam o problema, o te­rapeuta recorre a determinadas técnicas como estratégia para chegar ao cerne do sintoma do paciente – Lionel o escuta enquanto oferece exercícios respiratórios e inclui em sua prática a articulação entre o sentido do sintoma e as experiências do futuro rei. Assim, acolhe o desejo escamoteado por trás do sintoma. Protegido pela confiança na técnica, o nobre inglês relaxa o corpo e solta a voz, grita seu ódio, localiza seus medos e aparece como Bertie.

Tudo parece caminhar bem até a morte do pai do duque de York, o rei George V. A dor da perda e o pavor associa­ do à possibilidade de vir a ocupar o trono mesclam-se com a proximidade concreta de seu desejo, tantas vezes negado, de ser rei. Para suportar e reconhecer esse ideal, precisa destronar ou matar simbolicamente o pai – e as­sim autorizar-se a receber a herança, transformando-a em algo próprio. A ruptura com o terapeuta é o recurso que, inconscientemente, encontra para negar essas aspirações, pois uma vez assumidas seria inevitável enfrentar o medo associado a elas. Seu desejo é lançado contra o terapeuta como uma bomba prestes a estourar sua identidade de menino inseguro, frágil, contido, covarde – e sem fala.

A sobreposição do desejo do terapeuta e ao do paciente levam Lionel a se retratar, mas neste momento não pode ser ouvido. Felizmente o paciente retoma a construção de uma nova condição, deixa de ser um menino forjado para caber em ideais que o alijaram da condição de sujeito de desejo. “Nasce” então o rei George VI. Levando em conta que sintomas são formações do inconsciente que indicam conflito entre o medo e o desejo, é possível considerar que, sem a gagueira, o duque de York cairia num vazio identitário. Esse risco, porém, é suficien­temente substituído pelo olhar generoso e confiante de Lionel, presente até a última cena. Uma postura cujo sabor renova o espírito da plateia, fazendo quem assiste confiar, mais uma vez, que suportar o “não saber” é condição para que o outro apareça como protagonista de sua cura e da superação de certo estado de infelicidade.

Revista Scientific American – por Maria Inês Tassinari

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