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domingo, 29 de maio de 2011

Ler é combinar textos




Tão certo quanto ler é uma viagem, através dos mundos da ficção ou aventurando-se em diferentes dimensões e frações do conhecimento, ler “também” é combinar textos, em um tear de experiências vividas pelo leitor, dentro e fora dos livros. Desse modo, ler também é um trabalho que demanda ânimo e pode parecer tanto mais leve, ou mesmo forçado para alguns, por causa desse tramar relações, conforme nosso instante e predisposição.
Ler depende, em igual medida, do interesse, do gosto e do hábito de conviver com os textos mais diversos, seja verbal, visual ou sonoro, nos mais diversos suportes disponíveis em nossa sociedade. É bastante comum ouvirmos aqui e acolá alguma idéia a respeito de leitura informativa, leitura funcional, leitura de entretenimento, leitura formativa, leitura literal, ao pé da letra ou mais solta, uma leitura livre, leitura compartilhada e tantos outros nomes e modalidades: cada uma carregando uma concepção do que é o ato da leitura. Sabemos que a leitura é uma prática social; ao mesmo tempo, tornar-se um “leitor de literatura” é efetivamente — e sempre — uma escolha pessoal. Isso não significa diminuir o importante papel da escola e da família em criar oportunidades e promover o encontro da criança e do jovem com os livros. Repetidas vezes, é possível despertar o interesse, provocar a curiosidade... O gosto aprimora-se com a variedade do cardápio de leituras e a combinação de textos, histórias, poemas, personagens, demandando tempo mais lento, extenso para a formação de um hábito consciente, maduro e saboroso.
Nesse sentido é que, muitas vezes, temas e figuras oferecem um ponto de apoio para iniciar uma conversa e apresentar uma seqüência de textos de literatura. Dois, três ou mais títulos introduzem o diálogo entre os leitores, de qualquer idade, e entre os próprios textos, em uma prática de leitura que se satisfaz pela comparação. Afinal, quando escrevem e ilustram sobre um mesmo assunto, diferentes autores não deixam de apresentar um ponto de vista particular, muitas vezes imaginativo e original.
É combinando textos que os leitores podem descobrir afinidades, ritmos e estilos que construirão sua vivência literária. Por esse motivo, antes de pensar a literatura infantil e juvenil como pretexto para outras atividades que extrapolam a própria ação da leitura, por que não fazer com que um tema conduza aos textos literários, como acontece pela vida afora? Um tema mobiliza a atenção, evoca acontecimentos, revolve nosso conhecimento e, com sorte, pode levantar polêmicas, dúvidas e mesmo novas possibilidades de interpretação dos fatos. Talvez aí esteja um apelo para a leitura literária como um território de afetos e imaginação, a reinterpretar ou reinventar fatos vividos no cotidiano ou sonhados em outros tempos e espaços. Sempre é bom lembrar que a literatura prima pela diversidade e pela diferença — o olhar corriqueiro e banal pouco importa.
E o olhar da literatura visa, não apenas o tema de que se inspira, mas tem toda a atenção para a linguagem, para as palavras e seus efeitos sobre a recepção leitora. Será que tudo isso não combina com você?



Peter O’Sagae
Doutor em Letras/USP, especialista em Literatura Infantil e Juvenil, leitor crítico
e editor responsável pelo site Dobras da Leitura, www.dobrasdaleitura.com.

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