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Este blog não tem propósito de indicar tratamentos para substituir cuidados médicos e medicamentos.Em caso de doença procure um médico e faça o tratamento corretamente.As dicas aqui descritas servem como terapia complementar e preventiva.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

AUTO-ESTIMA



"Amor-próprio", "faz bem ao ego", "se gostar", "gostar primeiro de si para poder amar o outro", etc., são termos mencionados pelas pessoas usualmente para designar a idéia difundida no imaginário coletivo acerca da necessidade da auto-estima.

Por outro lado, sentimentos de tristeza, depressão, incapacidade, vazio, impotência, insegurança, mobilizam e impulsionam as pessoas a buscar fórmulas prontas, soluções rápidas e, muitas das vezes, medicamentos ou livros de auto-ajuda.

Trata-se aqui de esclarecer o quanto é complexa essa rede de significações, o quanto sua origem é primitiva e o quanto está ligada a aspectos inconscientes relacionados a fases originárias do desenvolvimento.

Quando se fala em narcisismo, no senso comum, a palavra é associada automaticamente a uma idéia de vaidade excessiva, amor exagerado a si mesmo.

Porém, clinicamente, o conceito de narcisismo se refere a uma etapa do desenvolvimento libidinal, onde a libido está voltada para o próprio ego em formação.

O que quer dizer isso? Que nesse começo, o narcisismo designa estruturalmente o surgimento de um sujeito, e não se trata de uma defesa, mas de uma etapa fundamental no desenvolvimento.

É o momento em que as provisões de afeto que puderem ser recebidas serão interiorizadas, como uma certa sensação de segurança interna. É claro que não somente aí e sim durante toda a infância. Porém, esse momento, em especial, registra de maneira marcante a relação com o mundo.

Na verdade, desde a concepção, ainda que não haja um corpo real, ele já existe - ou não - no desejo da mãe. Trata-se da primeira "aceitação", da forma com que esse ser é recebido e em que rede de significações ele vai surgir, isto é: se for ou não desejado; que necessidades e expectativas vêm suprir; que momento é esse na vida do casal parental; e, a quantas anda a auto-estima de seus pais...

O ser humano é o único ser vivo que nasce em absoluta dependência para sobreviver. Que precisa do outro que dele cuide. Mas, o mais importante é a forma com que é cuidado e não apenas ser cuidado.

Ao nascer, saímos de uma situação segura, de absoluta homeostase, para um ambiente desconhecido de sensações que clamam por satisfação.

Mais uma vez, a forma com que se dá essa escolha, esse continente, é o mais importante. Se ele é respeitado em suas necessidades primordiais e se pode, na medida em que rompe essa ligação simbiótica, construir recursos internos capazes de vir a suprir essas necessidades e frustrações.

Nesse ponto, é importante ressaltar que essa disponibilidade está atravessada, por fatores na mãe ou em quem exerça a função da maternagem, por aspectos inconscientes relacionados diretamente com suas próprias questões e sua história de vida.

Então, a forma com que se vai estabelecer esse vínculo determina também a forma com que alguém se posta no mundo.

Todos nós trazemos inscritos no corpo ou na fala e, portanto, no inconsciente, algo da mãe, que é o primeiro fator de identificação quando nos distanciamos ou rompemos a fusão. A maneira com que nos construímos, fundamenta-se nesse primeiro contato.

A violência física ou moral, práticas coercitivas, humilhantes, a supressão ou o controle do comportamento pela ameaça são capazes de produzir uma sensação de raiva - e, por conseguinte, de culpa - e de desamor muito intensas, que, quase sempre, moldam a estrutura de funcionamento na relação com o mundo.

Da mesma forma, o excesso de cuidado com a alimentação, a higiene e as funções digestivas da criança, toma por vezes o lugar de um ouvido atento às suas reais necessidades. É fundamental que o ser humano possa reconhecê-las e, já em tenra idade, crer que pode ser atendido.

A privação também é geradora de desistência. O bebê que chora continuamente sem ser atendido, o faz porque ainda tem esperança de que alguém o ouça. Quando pára, é sinal que desistiu... Que não acredita mais que sua necessidade vital possa ser satisfeita. Porém, ir ao encontro das necessidades de uma criança não quer dizer ir ao encontro do que a mãe pensa que ela precisa (e a desapropria de seu desejo). Os indícios para se entender suas necessidades estão na forma com que se comunica.

Todas essas questões são produtoras ou não do que se chama de auto-estima.

As relações afetivas são marcadas por uma reprodução muito evidente das primeiras formas de relação. É possível imaginar o quanto essa falta primitiva é capaz de atravessar as relações de afeto no adulto, que muitas vezes se funde no outro ou arrasta o buraco de suas privações para o parceiro, atualizando algo que foi construído em fase bastante anterior.

Essa dinâmica é marcada pela ameaça de perda do amor ou por uma dependência peculiar, bem como por um sentimento de que o mundo o privou de algo, ao mesmo tempo em que sua possibilidade de intervir no mundo e responsabilizar-se por sua própria vida é bastante remota. Temos, então, a idéia do sujeito como ser em construção permanente, mas inscrito numa rede de significações sociais e familiares onde as primeiras relações são de crucial importância.

Porém, não se trata de culpar e sim de responsabilizar aquele que cuida ou educa, de vez que todos trazemos nossas próprias marcas. Devemos deixar claro de que nos referimos a uma mãe suficientemente boa, que tenha o desejo de oferecer ao pequenino a oportunidade de capitalizar-se afetivamente para vida, com respeito à sua individualidade e capacidade de desenvolver-se de forma plena, com recursos internos para crescer e expressar-se de forma espontânea e genuína, reconhecendo seus próprios limites, os da vida e os do outro.

Essa possibilidade é algo que se busca resgatar num processo terapêutico, bem como um contato maior com nossas emoções e sentimentos em relação a nós mesmos e os outros.

Isso não indica, porém, um modelo de saúde e muito menos um modelo de mãe ou pai, e sim um movimento em direção ao saudável, num constante processo de construção e reconstrução.

Tal processo é revivido dentro da terapia, adquirindo novas significações.

Muitas vezes um sentimento de inadequação diante do mundo e a perda da auto-estima, vem falar de histórias muito, muito mais antigas do que imaginamos...


Leda Rebello

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